Olá,
Faz bastante tempo que não escrevo nada por aqui. Sou professora de Educação Infantil e Psicóloga Clínica e venho hoje trazer algumas reflexões que tem me tirado um pouco a tranquilidade no trabalho com a educação dos meus alunos, pequenos de 4 a 5 anos de idade.
Algo muito estarrecedor que me aparece e que não tenho tido tempo de refletir para pensar de que forma agir em relação a isso, são as reproduções que eles fazem de valores machistas.
Como assim machistas? Bem, a divisão "natural" entre brincadeiras de menino e de menina que acontece "sem querer", por exemplo. A verbalização de que coisas são de menino ou menina, que cores são de menino ou menina, que personagens da ficção infantil são de menino ou menina.
Essa divisão pura e simples, que pode parecer ingênua já vem carregada de sentidos. Vem carregada de papéis pré-definidos e que, nas entrelinhas, colocam um gênero como forte e um como fraco. Um como bruto e um como delicado, um como competitivo e outro como cooperativo, excluindo um do outro.
As "brincadeiras" de desenhar ou montar armadilhas "contra" as meninas, falas de que as meninas são chatas ou vice-versa, trejeitos trazidos pelas meninas de personagens de desenhos, filmes, músicas, novelas, comerciais, que as fazem ser muito "afetadas" e "feminilizadas" de um forma exagerada e muito pouco natural, me incomodam muito.
Outro tipo de valores, não necessariamente ligado ao gênero, mas absolutamente ligado à dinâmica de poder (que na verdade é o que está por trás da questão do gênero) também são passados por estas mídias.
Ontem mesmo, numa conversa entre crianças, uma delas dizia: "Sou eu quem manda na brincadeira! Tem pedir pra mim!". E eu curiosa, questionei o porquê de ter que existir alguém que "mande" na brincadeira e ela disse: "Na Patrulha Canina tem.", com naturalidade. E eu continuei questionando: "Mas precisa ter alguém que mande, mesmo?" e ela disse: "Ás vezes sim". Continuei: "Mas por quê?". A pequena não sabia me dizer.
Essa é a armadilha. Valores são assim. Os reproduzimos sem saber porquê. E mesmo sem saber o porquê, temos tanta certeza, quase absoluta, sobre aquela realidade vista e revista, afirmada e reafirmada no cotidiano da vida real, na lógica social, nos desenhos, roupas, brinquedos, nas relações com familiares, com estranhos na rua e em todo o lugar, que supomos que esta é a única forma correta de se relacionar com o outro.
Outro diálogo, de hoje, por exemplo, foi, no meio de uma brincadeira, quando uma menina disse: "Sabe, minhas filhas e eu somos pobres". E questionando o que significava isso, me disseram: "É ter pouco dinheiro e ter que limpar a casa.". Em seguida, me disseram que é "Ter nenhum dinheiro ou só umas moedinhas e não poder comprar nada.".
A reflexão posterior sobre porque o rico é rico e porque o pobre é pobre variava de: "O rico é melhor, o pobre não é tão bom." a "É que tem que ir no banco pegar mais dinheiro.". A mesma criança que iniciou o argumento, disse: "Meu pai é rico e minha mãe é pobre.". Dois pais casados, que moram juntos. Um homem e uma mulher. Será que ela estava falando de dinheiro na carteira deles ou será que estava falando em poder de decisão dentro de um casal?
Eu não sei o que faz a pequena pensar nisso, mas duvido que nisso não haja algo que lhe foi transmitido não apenas pela observação da relação dos pais, mas de toda a lógica do mundo adulto que ela observa e tenta decodificar com as ferramentas que direcionamos a ela: livros, colegas, brincadeiras, filmes, brinquedos, espaços de convivência entre as pessoas em que ela aprende coisas e que vão comprovando para ela uma teoria do funcionamento das coisas.
Que não está bom.
E qual o meu papel como professora dela? E desse grupo inteiro? O que eu deveria fornecer a eles para questionar isso tudo, sem desmoronar o que ela tem de aprendizagem do mundo real, que é mesmo desigual, machista e brutal no sentido da justiça social, da igualdade de gêneros e da distribuição de renda?
Não sei por que caminho seguir. Mas estou sempre atenta e aflita sobre que exemplo posso estar passando, pessoalmente, na minha relação com o grupo, com os pais, com os colegas da escola, com o espaço, com os objetos, com os alimentos, com as ideias. Que duro e pesado é não saber.
Que medo de não saber se é possível ajudá-los a questionarem essa realidade que estão percebendo, pois está posta em todos os lugares de forma explícita demais e desumana demais na maior parte dos lugares.
Que eu tenha recursos humanos e teóricos para mudar, nem que seja um soprinho desse pensamento imposto de fora pra dentro a eles.
E se alguém aí fora tiver um texto, uma indicação de leitura, uma proposta de atividade, compartilha com a gente!
Um abraço e seguimos lutando!
Carol
Reflexões sobre a criança, sua educação pedagógica e de valores, orientado a pais e professores
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terça-feira, 5 de setembro de 2017
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
A cidade das crianças
Olá,
Neste semestre estamos pesquisando a cidade de São Paulo com o grupo. Fomentando pelo interesse das crianças no processo eleitoral para Prefeito neste ano e em conversas em que muitas confusões (dada a tenra idade dos pequenos de 4 e 5 anos) entre presidente e prefeito, além de mundo, cidade e país apareceram, resolvemos conversar sobre a cidade.
A princípio, um projeto inédito que nunca havia sido feito com o grupo, tem que ser feito de acordo com o interesse e expectativas do grupo, porém, também deve ser feita uma busca de ideias, inspirações e material que fomente ideias.
Nas rodas de conversa, levantamos primeiramente os espaços conhecidos do grupo, fazendo provocações sobre as coisas que seriam necessárias ou bacanas de termos numa cidade. No início, dado o debate eleitoral, apareceu muito a ideia de mobilidade, das ciclofaixas, das ruas, da velocidade dos carros, temas abordados pelos prefeitos em suas campanhas e discutidos em casa entre crianças e pais.
Aos poucos fomos nos afastando deste debate para nos aproximarmos do que eles entendiam como cidade, a cidade sob o olhar deles. Falaram muito sobre as casas, prédios, shoppings a princípio e logo foram surgindo espaços mais públicos, como praças, parques, avenidas, lugares que eram mais públicos, além de estádios, hospitais, lojas, supermercados, padarias, o trabalho dos pais, a natação ou clube, as casas dos avós ou tios, enfim, espaços ocupados por eles em seu cotidiano, além da escola.
Brincadeiras com desenhos, dobraduras, caixas, alguns vídeos, em especial do projeto "Cidade Educadora" e livros de turismo voltados ou não ao público infantil e recortes com paisagens conhecidas para colagem ou intervenção foram propostas, gerando maiores identificações e a ampliação do conhecimento sobre o que já viram nesta cidade.
Passeios com outros objetivos, mas que pelo caminho fomos provocando as crianças a terem outro olhar da paisagem foram feitos fomentando o interesse e olhar atento e curioso, ampliando ainda mais esta noção do que seria esta cidade.
Um próxima proposta será a de pedir aos pais uma foto da fachada de seus prédios para que possamos fazer uma ilustração do trajeto da casa até a a escola, mesmo que seja apenas um quarteirão, pois este será sem dúvida o espaço mais apropriado por eles em seu dia-a-dia, por ser um trajeto cotidiano e obrigatório.
A expectativa de ver pequenos como estes se apropriarem do espaço de moradia de forma mais ampla do que apenas do espaço privado é enorme. E a preocupação com o espaço público, fomentado pelo olhar de admiração e encantamento é inspirador!
Conto mais ao longo do processo, instigante, de criar algo novo através do olhar criativo e espontâneo deles.
Um abraço!
Carol
Neste semestre estamos pesquisando a cidade de São Paulo com o grupo. Fomentando pelo interesse das crianças no processo eleitoral para Prefeito neste ano e em conversas em que muitas confusões (dada a tenra idade dos pequenos de 4 e 5 anos) entre presidente e prefeito, além de mundo, cidade e país apareceram, resolvemos conversar sobre a cidade.
A princípio, um projeto inédito que nunca havia sido feito com o grupo, tem que ser feito de acordo com o interesse e expectativas do grupo, porém, também deve ser feita uma busca de ideias, inspirações e material que fomente ideias.
Nas rodas de conversa, levantamos primeiramente os espaços conhecidos do grupo, fazendo provocações sobre as coisas que seriam necessárias ou bacanas de termos numa cidade. No início, dado o debate eleitoral, apareceu muito a ideia de mobilidade, das ciclofaixas, das ruas, da velocidade dos carros, temas abordados pelos prefeitos em suas campanhas e discutidos em casa entre crianças e pais.
Aos poucos fomos nos afastando deste debate para nos aproximarmos do que eles entendiam como cidade, a cidade sob o olhar deles. Falaram muito sobre as casas, prédios, shoppings a princípio e logo foram surgindo espaços mais públicos, como praças, parques, avenidas, lugares que eram mais públicos, além de estádios, hospitais, lojas, supermercados, padarias, o trabalho dos pais, a natação ou clube, as casas dos avós ou tios, enfim, espaços ocupados por eles em seu cotidiano, além da escola.
Brincadeiras com desenhos, dobraduras, caixas, alguns vídeos, em especial do projeto "Cidade Educadora" e livros de turismo voltados ou não ao público infantil e recortes com paisagens conhecidas para colagem ou intervenção foram propostas, gerando maiores identificações e a ampliação do conhecimento sobre o que já viram nesta cidade.
Passeios com outros objetivos, mas que pelo caminho fomos provocando as crianças a terem outro olhar da paisagem foram feitos fomentando o interesse e olhar atento e curioso, ampliando ainda mais esta noção do que seria esta cidade.
Um próxima proposta será a de pedir aos pais uma foto da fachada de seus prédios para que possamos fazer uma ilustração do trajeto da casa até a a escola, mesmo que seja apenas um quarteirão, pois este será sem dúvida o espaço mais apropriado por eles em seu dia-a-dia, por ser um trajeto cotidiano e obrigatório.
A expectativa de ver pequenos como estes se apropriarem do espaço de moradia de forma mais ampla do que apenas do espaço privado é enorme. E a preocupação com o espaço público, fomentado pelo olhar de admiração e encantamento é inspirador!
Conto mais ao longo do processo, instigante, de criar algo novo através do olhar criativo e espontâneo deles.
Um abraço!
Carol
quarta-feira, 25 de maio de 2016
Reflexões sobre a roda de conversa e leitura na Educação Infantil
por: Carolina Torres*
Um tema como este só pode ser tratado a partir de um ponto de vista específico que é o da escola que chamamos de “nova”, em que há uma visão democrática de educação e em que o aluno é visto como tendo muito a contribuir para a direção do processo de aprendizagem. Neste modelo, que segue o construtivismo e muitas das visões de Paulo Freire, a roda está presente como lugar de escuta, de fala em que a criança tem o lugar de um ser ativo e construtor de conhecimento, além da visão reconhecer a infância como o momento propício para a entrada na sociedade através da convivência com seus primeiros pares, da mesma idade ou não, na escola, seus primeiros “conhecidos” que não são de seu núcleo familiar.
De acordo com a visão explicitada, a escola é vista como lugar de construção de conhecimento e de troca, onde o diálogo é a forma em que esta construção acontece.
A roda pode acontecer desde o menor grupo, de 1 a 2 anos, focando-se na comunicação baseada em relatos que os pais mandam e através de manifestações não verbais, e deve manter o lugar de importância em todos os níveis de educação posterior a este.
O grupo que vou tomar como exemplo, por ser minha área de atuação há 08 anos, é a faixa etária de 03 a 04 anos de idade. Nesta idade, a fala das crianças já está começando a se estabelecer e o funcionamento e importância da roda também, caso a criança já esteja na escola anteriormente, mas, se não estiver, já há uma capacidade de compreensão sobre a importância da fala e da troca com os colegas que vai se construindo.
É em roda que as crianças se escutam e através dela, se identificam com seus colegas, criando laços de afinidade, pois passam a perceber o outro a partir de sua fala, com suas diferenças e semelhanças e podem se relacionar, formando vínculos cada vez amis fortes e profundos. É assim que um punhado de crianças que se conhece bem pode se tornar um grupo de fato, que se conhece muito bem e se relaciona.
A roda é o lugar de se olhar, de escutar, de falar e de ser ouvido. É onde os pequenos elaboram seu discurso, aprendendo a perguntar, a responder, a escutar a resposta e a pergunta do outro, podendo refletir e se colocar sempre que precisar.
Quando compreendem que este é o espaço garantido que eles têm para se colocar, as crianças guardam suas “novidades” para contar no momento da roda, e trazem suas intimidades, eventos importantes que acontecem fora da escola para dividir com os amigos, demonstrando perceber exatamente a importância dela e do suporte que o grupo pode dar para que ele elabore e até valide ainda mais suas ideias e vivências mais intensas.
O grupo passa a dividir estas intimidades e se comparam ou se diferenciam dos outros aprendendo a respeitar e conhecer formas diferentes de sentir, se colocando pelas primeiras vezes no lugar do outro para conhecerem melhor a maneira diferente do outro ser, as realidades diversas sejam físicas, familiares, culturais que existem e que podem ser diferentes da realidade que vem do núcleo familiar de cada um.
Assim ocorre a primeira inserção no mundo social e a criança pode aprender a conhecer e respeitar o outro mesmo que seja muito diferente de si mesmo. Conversas nesta faixa etária podem ser muito profundas, pois questões como nascimento, morte, diferenciações entre os sexos e curiosidades sobre o funcionamento e o “porque” das coisas começa ali.
Assim ocorre a primeira inserção no mundo social e a criança pode aprender a conhecer e respeitar o outro mesmo que seja muito diferente de si mesmo. Conversas nesta faixa etária podem ser muito profundas, pois questões como nascimento, morte, diferenciações entre os sexos e curiosidades sobre o funcionamento e o “porque” das coisas começa ali.
A roda também é momento de leitura e se lê e ouve histórias clássicas ou contemporâneas, parlendas, poesias e as crianças aprendem a distinguir os diferentes portadores e formas de textos, fazendo leituras de imagens e até memorizando longos enredos que através da repetição podem até ser recontados por eles com apoio das imagens.
Nela também podem ser elaborados projetos de pesquisa com os pequenos, com conversas que são disparadoras de um caminho de pesquisa que pode fazer sentido ou não para o grupo e para isso o professor deve estar atento e sensível ao que o grupo está interessado, sem impor um tema que não lhes mobilize a pesquisar. Alguns exemplos de projetos interessantes nesta faixa etária são projetos sobre animais, brincadeiras cantadas, instrumentos musicais, jogos, construção e brinquedos com sucata, sentimentos, apreciação de obras de arte, sobre a gravidez e o nascimento deles, sobre os cinco sentidos, entre outras infinitas possibilidades.
Na roda podemos fazer a primeira sondagem de um possível tema de projeto para ver o que eles já sabem, se é um tema que lhes interessa e por onde podem começar a pesquisar, seja com a apresentação de uma atividade prática, com livros informativos, com imagens, vídeos, etc.
Este é um momento da rotina na educação infantil que é espaço de troca de conhecimento, de intimidade e de formação de grupo e em que o grupo se encontra inteiro se olhando e com a possibilidade de compartilhar a mesma experiência, com espaço de se manifestar. É um dos momentos mais intensos e interessantes justamente pela riqueza das trocas que posem acontecer ali, quando dado o espaço de manifestação garantido a todos.
*Reflexões compartilhadas no V Congresso Práticas de sala de Aula ICLOC em 18/05/13
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