Olá,
Faz bastante tempo que não escrevo nada por aqui. Sou professora de Educação Infantil e Psicóloga Clínica e venho hoje trazer algumas reflexões que tem me tirado um pouco a tranquilidade no trabalho com a educação dos meus alunos, pequenos de 4 a 5 anos de idade.
Algo muito estarrecedor que me aparece e que não tenho tido tempo de refletir para pensar de que forma agir em relação a isso, são as reproduções que eles fazem de valores machistas.
Como assim machistas? Bem, a divisão "natural" entre brincadeiras de menino e de menina que acontece "sem querer", por exemplo. A verbalização de que coisas são de menino ou menina, que cores são de menino ou menina, que personagens da ficção infantil são de menino ou menina.
Essa divisão pura e simples, que pode parecer ingênua já vem carregada de sentidos. Vem carregada de papéis pré-definidos e que, nas entrelinhas, colocam um gênero como forte e um como fraco. Um como bruto e um como delicado, um como competitivo e outro como cooperativo, excluindo um do outro.
As "brincadeiras" de desenhar ou montar armadilhas "contra" as meninas, falas de que as meninas são chatas ou vice-versa, trejeitos trazidos pelas meninas de personagens de desenhos, filmes, músicas, novelas, comerciais, que as fazem ser muito "afetadas" e "feminilizadas" de um forma exagerada e muito pouco natural, me incomodam muito.
Outro tipo de valores, não necessariamente ligado ao gênero, mas absolutamente ligado à dinâmica de poder (que na verdade é o que está por trás da questão do gênero) também são passados por estas mídias.
Ontem mesmo, numa conversa entre crianças, uma delas dizia: "Sou eu quem manda na brincadeira! Tem pedir pra mim!". E eu curiosa, questionei o porquê de ter que existir alguém que "mande" na brincadeira e ela disse: "Na Patrulha Canina tem.", com naturalidade. E eu continuei questionando: "Mas precisa ter alguém que mande, mesmo?" e ela disse: "Ás vezes sim". Continuei: "Mas por quê?". A pequena não sabia me dizer.
Essa é a armadilha. Valores são assim. Os reproduzimos sem saber porquê. E mesmo sem saber o porquê, temos tanta certeza, quase absoluta, sobre aquela realidade vista e revista, afirmada e reafirmada no cotidiano da vida real, na lógica social, nos desenhos, roupas, brinquedos, nas relações com familiares, com estranhos na rua e em todo o lugar, que supomos que esta é a única forma correta de se relacionar com o outro.
Outro diálogo, de hoje, por exemplo, foi, no meio de uma brincadeira, quando uma menina disse: "Sabe, minhas filhas e eu somos pobres". E questionando o que significava isso, me disseram: "É ter pouco dinheiro e ter que limpar a casa.". Em seguida, me disseram que é "Ter nenhum dinheiro ou só umas moedinhas e não poder comprar nada.".
A reflexão posterior sobre porque o rico é rico e porque o pobre é pobre variava de: "O rico é melhor, o pobre não é tão bom." a "É que tem que ir no banco pegar mais dinheiro.". A mesma criança que iniciou o argumento, disse: "Meu pai é rico e minha mãe é pobre.". Dois pais casados, que moram juntos. Um homem e uma mulher. Será que ela estava falando de dinheiro na carteira deles ou será que estava falando em poder de decisão dentro de um casal?
Eu não sei o que faz a pequena pensar nisso, mas duvido que nisso não haja algo que lhe foi transmitido não apenas pela observação da relação dos pais, mas de toda a lógica do mundo adulto que ela observa e tenta decodificar com as ferramentas que direcionamos a ela: livros, colegas, brincadeiras, filmes, brinquedos, espaços de convivência entre as pessoas em que ela aprende coisas e que vão comprovando para ela uma teoria do funcionamento das coisas.
Que não está bom.
E qual o meu papel como professora dela? E desse grupo inteiro? O que eu deveria fornecer a eles para questionar isso tudo, sem desmoronar o que ela tem de aprendizagem do mundo real, que é mesmo desigual, machista e brutal no sentido da justiça social, da igualdade de gêneros e da distribuição de renda?
Não sei por que caminho seguir. Mas estou sempre atenta e aflita sobre que exemplo posso estar passando, pessoalmente, na minha relação com o grupo, com os pais, com os colegas da escola, com o espaço, com os objetos, com os alimentos, com as ideias. Que duro e pesado é não saber.
Que medo de não saber se é possível ajudá-los a questionarem essa realidade que estão percebendo, pois está posta em todos os lugares de forma explícita demais e desumana demais na maior parte dos lugares.
Que eu tenha recursos humanos e teóricos para mudar, nem que seja um soprinho desse pensamento imposto de fora pra dentro a eles.
E se alguém aí fora tiver um texto, uma indicação de leitura, uma proposta de atividade, compartilha com a gente!
Um abraço e seguimos lutando!
Carol
Reflexões sobre a criança, sua educação pedagógica e de valores, orientado a pais e professores
terça-feira, 5 de setembro de 2017
terça-feira, 4 de julho de 2017
Reflexões sobre o Projeto "Bichinhos de Jardim" e outros trabalhos do Grupo 4 (1o. semestre 2017)
Olá,
terminei na semana passada mais um semestre de trabalho com uma turma de Educação Infantil, de 4 a 5 anos de idade. Neste semestre, como é comum em meu trabalho, pesquisamos os "bichinhos de jardim", uma pesquisa sobre os insetos e outros habitantes de nossos parques, vasos e jardins, que a cidade proporciona chegarem.
Ao longo do semestre, vimos inúmeros bichinhos, montamos nosso viveiro, pesquisamos em livro e em espaços voltados para isso como o "Sabor de Fazenda" e o "Planeta Inseto" da USP e as crianças descobriram mutias coisas sobre estes animaizinhos, gerando um olhar mais detalhado em relação ao mundo a sua volta e também à natureza e suas incríveis façanhas, como a metamorfose das borboletas e mariposas e a existência de seres tão diversos, como mais e menos patas, como ou sem olhos e bocas, com estruturas e hábitos tão diferentes de nós e dos animais mais conhecidos por eles.
Além disso, trabalhamos muito a brincadeira simbólica, a atividade plástica com desenhos de observação destes animais e o universo da contagem apareceu, ao analisarmos todas estas variáveis: patas, olhos, ovos postos, tempo de encasulamento das lagartas, quantidade de bichinhos que haviam em nosso viveiro. Conhecemos muitos termos científicos que não faziam parte do vocabulário dos pequenos e também alguns textos poéticos, narrativos e canções sobre eles. Foi muito rico, como sempre!
Também trabalhamos alguns jogos como o grupo, como a Memória, o Lince, os quebra-cabeças, jogos de trilha com dados como o "20 casas", "50 casas" e trilhas de percurso com uso de pinos. Algumas crianças quiseram trazer jogos de casa para incrementar nosso repertório e trouxeram jogos como "Cilada", "Imitatrix" e outros jogos com uso de dado baseado em cores ao invés de números como o "Carrossel de cores", por exemplo.
Também trabalhamos muito a música, por haver um interesse especial em alguns artistas por parte de algumas crianças como Beatles, Michael Jackson e Queen, por exemplo. Ouvimos e dançamos muito algumas músicas que não são do repertório da faixa etária que cantamos diariamente.
Além disso conhecemos uma brincadeira cantada do Grupo Triii do músico Estevão Marques chamada "Chocolate" que estimula movimentos corporais e o trabalho com os sons das palavras. Trabalhamos uma história musicada do mesmo grupo chamada "Macaco Vanderlei" e também duas histórias tradicionais cantadas pela Bia Bedran, chamadas "História da Coca" e "Macaquinho", trabalham tanto a musicalidade, como a memória por serem histórias clássicas do tipo "história sem fim".
terminei na semana passada mais um semestre de trabalho com uma turma de Educação Infantil, de 4 a 5 anos de idade. Neste semestre, como é comum em meu trabalho, pesquisamos os "bichinhos de jardim", uma pesquisa sobre os insetos e outros habitantes de nossos parques, vasos e jardins, que a cidade proporciona chegarem.
Ao longo do semestre, vimos inúmeros bichinhos, montamos nosso viveiro, pesquisamos em livro e em espaços voltados para isso como o "Sabor de Fazenda" e o "Planeta Inseto" da USP e as crianças descobriram mutias coisas sobre estes animaizinhos, gerando um olhar mais detalhado em relação ao mundo a sua volta e também à natureza e suas incríveis façanhas, como a metamorfose das borboletas e mariposas e a existência de seres tão diversos, como mais e menos patas, como ou sem olhos e bocas, com estruturas e hábitos tão diferentes de nós e dos animais mais conhecidos por eles.
Além disso, trabalhamos muito a brincadeira simbólica, a atividade plástica com desenhos de observação destes animais e o universo da contagem apareceu, ao analisarmos todas estas variáveis: patas, olhos, ovos postos, tempo de encasulamento das lagartas, quantidade de bichinhos que haviam em nosso viveiro. Conhecemos muitos termos científicos que não faziam parte do vocabulário dos pequenos e também alguns textos poéticos, narrativos e canções sobre eles. Foi muito rico, como sempre!
Também trabalhamos alguns jogos como o grupo, como a Memória, o Lince, os quebra-cabeças, jogos de trilha com dados como o "20 casas", "50 casas" e trilhas de percurso com uso de pinos. Algumas crianças quiseram trazer jogos de casa para incrementar nosso repertório e trouxeram jogos como "Cilada", "Imitatrix" e outros jogos com uso de dado baseado em cores ao invés de números como o "Carrossel de cores", por exemplo.
Também trabalhamos muito a música, por haver um interesse especial em alguns artistas por parte de algumas crianças como Beatles, Michael Jackson e Queen, por exemplo. Ouvimos e dançamos muito algumas músicas que não são do repertório da faixa etária que cantamos diariamente.
Além disso conhecemos uma brincadeira cantada do Grupo Triii do músico Estevão Marques chamada "Chocolate" que estimula movimentos corporais e o trabalho com os sons das palavras. Trabalhamos uma história musicada do mesmo grupo chamada "Macaco Vanderlei" e também duas histórias tradicionais cantadas pela Bia Bedran, chamadas "História da Coca" e "Macaquinho", trabalham tanto a musicalidade, como a memória por serem histórias clássicas do tipo "história sem fim".
segunda-feira, 24 de outubro de 2016
A cidade das crianças
Olá,
Neste semestre estamos pesquisando a cidade de São Paulo com o grupo. Fomentando pelo interesse das crianças no processo eleitoral para Prefeito neste ano e em conversas em que muitas confusões (dada a tenra idade dos pequenos de 4 e 5 anos) entre presidente e prefeito, além de mundo, cidade e país apareceram, resolvemos conversar sobre a cidade.
A princípio, um projeto inédito que nunca havia sido feito com o grupo, tem que ser feito de acordo com o interesse e expectativas do grupo, porém, também deve ser feita uma busca de ideias, inspirações e material que fomente ideias.
Nas rodas de conversa, levantamos primeiramente os espaços conhecidos do grupo, fazendo provocações sobre as coisas que seriam necessárias ou bacanas de termos numa cidade. No início, dado o debate eleitoral, apareceu muito a ideia de mobilidade, das ciclofaixas, das ruas, da velocidade dos carros, temas abordados pelos prefeitos em suas campanhas e discutidos em casa entre crianças e pais.
Aos poucos fomos nos afastando deste debate para nos aproximarmos do que eles entendiam como cidade, a cidade sob o olhar deles. Falaram muito sobre as casas, prédios, shoppings a princípio e logo foram surgindo espaços mais públicos, como praças, parques, avenidas, lugares que eram mais públicos, além de estádios, hospitais, lojas, supermercados, padarias, o trabalho dos pais, a natação ou clube, as casas dos avós ou tios, enfim, espaços ocupados por eles em seu cotidiano, além da escola.
Brincadeiras com desenhos, dobraduras, caixas, alguns vídeos, em especial do projeto "Cidade Educadora" e livros de turismo voltados ou não ao público infantil e recortes com paisagens conhecidas para colagem ou intervenção foram propostas, gerando maiores identificações e a ampliação do conhecimento sobre o que já viram nesta cidade.
Passeios com outros objetivos, mas que pelo caminho fomos provocando as crianças a terem outro olhar da paisagem foram feitos fomentando o interesse e olhar atento e curioso, ampliando ainda mais esta noção do que seria esta cidade.
Um próxima proposta será a de pedir aos pais uma foto da fachada de seus prédios para que possamos fazer uma ilustração do trajeto da casa até a a escola, mesmo que seja apenas um quarteirão, pois este será sem dúvida o espaço mais apropriado por eles em seu dia-a-dia, por ser um trajeto cotidiano e obrigatório.
A expectativa de ver pequenos como estes se apropriarem do espaço de moradia de forma mais ampla do que apenas do espaço privado é enorme. E a preocupação com o espaço público, fomentado pelo olhar de admiração e encantamento é inspirador!
Conto mais ao longo do processo, instigante, de criar algo novo através do olhar criativo e espontâneo deles.
Um abraço!
Carol
Neste semestre estamos pesquisando a cidade de São Paulo com o grupo. Fomentando pelo interesse das crianças no processo eleitoral para Prefeito neste ano e em conversas em que muitas confusões (dada a tenra idade dos pequenos de 4 e 5 anos) entre presidente e prefeito, além de mundo, cidade e país apareceram, resolvemos conversar sobre a cidade.
A princípio, um projeto inédito que nunca havia sido feito com o grupo, tem que ser feito de acordo com o interesse e expectativas do grupo, porém, também deve ser feita uma busca de ideias, inspirações e material que fomente ideias.
Nas rodas de conversa, levantamos primeiramente os espaços conhecidos do grupo, fazendo provocações sobre as coisas que seriam necessárias ou bacanas de termos numa cidade. No início, dado o debate eleitoral, apareceu muito a ideia de mobilidade, das ciclofaixas, das ruas, da velocidade dos carros, temas abordados pelos prefeitos em suas campanhas e discutidos em casa entre crianças e pais.
Aos poucos fomos nos afastando deste debate para nos aproximarmos do que eles entendiam como cidade, a cidade sob o olhar deles. Falaram muito sobre as casas, prédios, shoppings a princípio e logo foram surgindo espaços mais públicos, como praças, parques, avenidas, lugares que eram mais públicos, além de estádios, hospitais, lojas, supermercados, padarias, o trabalho dos pais, a natação ou clube, as casas dos avós ou tios, enfim, espaços ocupados por eles em seu cotidiano, além da escola.
Brincadeiras com desenhos, dobraduras, caixas, alguns vídeos, em especial do projeto "Cidade Educadora" e livros de turismo voltados ou não ao público infantil e recortes com paisagens conhecidas para colagem ou intervenção foram propostas, gerando maiores identificações e a ampliação do conhecimento sobre o que já viram nesta cidade.
Passeios com outros objetivos, mas que pelo caminho fomos provocando as crianças a terem outro olhar da paisagem foram feitos fomentando o interesse e olhar atento e curioso, ampliando ainda mais esta noção do que seria esta cidade.
Um próxima proposta será a de pedir aos pais uma foto da fachada de seus prédios para que possamos fazer uma ilustração do trajeto da casa até a a escola, mesmo que seja apenas um quarteirão, pois este será sem dúvida o espaço mais apropriado por eles em seu dia-a-dia, por ser um trajeto cotidiano e obrigatório.
A expectativa de ver pequenos como estes se apropriarem do espaço de moradia de forma mais ampla do que apenas do espaço privado é enorme. E a preocupação com o espaço público, fomentado pelo olhar de admiração e encantamento é inspirador!
Conto mais ao longo do processo, instigante, de criar algo novo através do olhar criativo e espontâneo deles.
Um abraço!
Carol
domingo, 16 de outubro de 2016
Música e brincadeiras para pais e educadores
Olá!
Vim desejar aos professores um dia especial e oferecer uma dica muito bacana para quem quer trabalhar musicalidade com as crianças, um canal de um músico e professor genial chamado Estevão Marques.
Ele trabalhou no Instituto Brincante e com o grupo Palavra Cantada e oferece dicas rápidas em vídeo pelo canal, além de ter um curso online e Workshops presenciais para quem quiser se aprofundar.
Sua forma lúdica de passar ideias de musicalização e conhecimento na área da educação e da música é inspiradora.
De sua autoria são instrumentos improvisados com colheres no chamado "Baile do Colherim" e brincadeira que ele chama de "Saborosas" ou de "Mirabolâncias". Ele também faz parte do grupo Triii e tem muito material bacana na área da educação com músicas e brincadeiras!
Espero que gostem!
Aqui links para sua página oficial e para o YouTube dele:
http://www.estevaomarques.com/
https://www.youtube.com/channel/UCTPK8TSU8QIledDyv5bwvmQ
Vim desejar aos professores um dia especial e oferecer uma dica muito bacana para quem quer trabalhar musicalidade com as crianças, um canal de um músico e professor genial chamado Estevão Marques.
Ele trabalhou no Instituto Brincante e com o grupo Palavra Cantada e oferece dicas rápidas em vídeo pelo canal, além de ter um curso online e Workshops presenciais para quem quiser se aprofundar.
Sua forma lúdica de passar ideias de musicalização e conhecimento na área da educação e da música é inspiradora.
De sua autoria são instrumentos improvisados com colheres no chamado "Baile do Colherim" e brincadeira que ele chama de "Saborosas" ou de "Mirabolâncias". Ele também faz parte do grupo Triii e tem muito material bacana na área da educação com músicas e brincadeiras!
Espero que gostem!
Aqui links para sua página oficial e para o YouTube dele:
http://www.estevaomarques.com/
https://www.youtube.com/channel/UCTPK8TSU8QIledDyv5bwvmQ
quarta-feira, 25 de maio de 2016
Reflexões sobre a roda de conversa e leitura na Educação Infantil
por: Carolina Torres*
Um tema como este só pode ser tratado a partir de um ponto de vista específico que é o da escola que chamamos de “nova”, em que há uma visão democrática de educação e em que o aluno é visto como tendo muito a contribuir para a direção do processo de aprendizagem. Neste modelo, que segue o construtivismo e muitas das visões de Paulo Freire, a roda está presente como lugar de escuta, de fala em que a criança tem o lugar de um ser ativo e construtor de conhecimento, além da visão reconhecer a infância como o momento propício para a entrada na sociedade através da convivência com seus primeiros pares, da mesma idade ou não, na escola, seus primeiros “conhecidos” que não são de seu núcleo familiar.
De acordo com a visão explicitada, a escola é vista como lugar de construção de conhecimento e de troca, onde o diálogo é a forma em que esta construção acontece.
A roda pode acontecer desde o menor grupo, de 1 a 2 anos, focando-se na comunicação baseada em relatos que os pais mandam e através de manifestações não verbais, e deve manter o lugar de importância em todos os níveis de educação posterior a este.
O grupo que vou tomar como exemplo, por ser minha área de atuação há 08 anos, é a faixa etária de 03 a 04 anos de idade. Nesta idade, a fala das crianças já está começando a se estabelecer e o funcionamento e importância da roda também, caso a criança já esteja na escola anteriormente, mas, se não estiver, já há uma capacidade de compreensão sobre a importância da fala e da troca com os colegas que vai se construindo.
É em roda que as crianças se escutam e através dela, se identificam com seus colegas, criando laços de afinidade, pois passam a perceber o outro a partir de sua fala, com suas diferenças e semelhanças e podem se relacionar, formando vínculos cada vez amis fortes e profundos. É assim que um punhado de crianças que se conhece bem pode se tornar um grupo de fato, que se conhece muito bem e se relaciona.
A roda é o lugar de se olhar, de escutar, de falar e de ser ouvido. É onde os pequenos elaboram seu discurso, aprendendo a perguntar, a responder, a escutar a resposta e a pergunta do outro, podendo refletir e se colocar sempre que precisar.
Quando compreendem que este é o espaço garantido que eles têm para se colocar, as crianças guardam suas “novidades” para contar no momento da roda, e trazem suas intimidades, eventos importantes que acontecem fora da escola para dividir com os amigos, demonstrando perceber exatamente a importância dela e do suporte que o grupo pode dar para que ele elabore e até valide ainda mais suas ideias e vivências mais intensas.
O grupo passa a dividir estas intimidades e se comparam ou se diferenciam dos outros aprendendo a respeitar e conhecer formas diferentes de sentir, se colocando pelas primeiras vezes no lugar do outro para conhecerem melhor a maneira diferente do outro ser, as realidades diversas sejam físicas, familiares, culturais que existem e que podem ser diferentes da realidade que vem do núcleo familiar de cada um.
Assim ocorre a primeira inserção no mundo social e a criança pode aprender a conhecer e respeitar o outro mesmo que seja muito diferente de si mesmo. Conversas nesta faixa etária podem ser muito profundas, pois questões como nascimento, morte, diferenciações entre os sexos e curiosidades sobre o funcionamento e o “porque” das coisas começa ali.
Assim ocorre a primeira inserção no mundo social e a criança pode aprender a conhecer e respeitar o outro mesmo que seja muito diferente de si mesmo. Conversas nesta faixa etária podem ser muito profundas, pois questões como nascimento, morte, diferenciações entre os sexos e curiosidades sobre o funcionamento e o “porque” das coisas começa ali.
A roda também é momento de leitura e se lê e ouve histórias clássicas ou contemporâneas, parlendas, poesias e as crianças aprendem a distinguir os diferentes portadores e formas de textos, fazendo leituras de imagens e até memorizando longos enredos que através da repetição podem até ser recontados por eles com apoio das imagens.
Nela também podem ser elaborados projetos de pesquisa com os pequenos, com conversas que são disparadoras de um caminho de pesquisa que pode fazer sentido ou não para o grupo e para isso o professor deve estar atento e sensível ao que o grupo está interessado, sem impor um tema que não lhes mobilize a pesquisar. Alguns exemplos de projetos interessantes nesta faixa etária são projetos sobre animais, brincadeiras cantadas, instrumentos musicais, jogos, construção e brinquedos com sucata, sentimentos, apreciação de obras de arte, sobre a gravidez e o nascimento deles, sobre os cinco sentidos, entre outras infinitas possibilidades.
Na roda podemos fazer a primeira sondagem de um possível tema de projeto para ver o que eles já sabem, se é um tema que lhes interessa e por onde podem começar a pesquisar, seja com a apresentação de uma atividade prática, com livros informativos, com imagens, vídeos, etc.
Este é um momento da rotina na educação infantil que é espaço de troca de conhecimento, de intimidade e de formação de grupo e em que o grupo se encontra inteiro se olhando e com a possibilidade de compartilhar a mesma experiência, com espaço de se manifestar. É um dos momentos mais intensos e interessantes justamente pela riqueza das trocas que posem acontecer ali, quando dado o espaço de manifestação garantido a todos.
*Reflexões compartilhadas no V Congresso Práticas de sala de Aula ICLOC em 18/05/13
quinta-feira, 12 de maio de 2016
Sobre o documentário "O começo da vida"
Olá,
Venho falar um pouco sobre a experiencia que tive ao assistir este documentário tão delicado e interessante sobre a primeira infância.
Entenda primeiro que trabalho com psicologia e com educação infantil, portanto este assunto que já é sensível para qualquer ser humano existente na face da terra, para mim, ele é pelo menos duas vezes mais sensível.
Bem, o viés trazido pelas diversas realidades abordadas nele, tratam de uma realidade comum entre os países de primeiro ou último mundo, que é a necessidade do cuidado das crianças pelos adultos. Existe até uma realidade apresentada ali em que crianças cuidam de crianças e que mostra como a pobreza extrema mina a capacidade de sonhar de uma criança em 100%, gerando uma angústia imensa no telespectador.
A questão simples está no vínculo. O sumo do supra sumo do filme é mostrar o quanto não é importante nenhuma outra circunstância para o bebê na vida do núcleo familiar neste início, além do vínculo. Não interessa o espaço, a temperatura, a alimentação, o nível de higiene ou sofisticação, não interessa a língua que é falada, o que interessa é necessidade de haver um vínculo forte com um cuidador, seja ele quem for. Pode ser a mãe biológica ou adotiva, pode ser um pai, uma avó, um avô, uma tia, uma babá, uma irmã ainda pequena também, uma educadora em um abrigo, outras crianças em uma comunidade, pode ser quem for, mas precisa haver um vínculo.
E é essa necessidade de vínculo que precisa haver entre um bebê e uma pessoa que seja referência para este bebê que faz a necessidade vital de haverem políticas públicas direcionadas ao cuidado da primeira infância, porque é dando possibilidade para que estes cuidadores cuidem é que se fará a humanidade futura possível. Se não há espaço para se pensar nesta etapa da vida como importante, sendo que é ali que toda a base para a formação de uma personalidade se forma, não haverá paz, não haverá justiça, não haverá um mundo mais coerente.
O filme apela para o telespectador no sentido de fomentar o desejo de ajudar, seja como for, pessoalmente, ou através de doações ou de direcionamento de alguma ajuda aos cuidadores das crianças, já que não é possível ajudar nenhuma criança diretamente, mas apenas através do cuidado dos cuidadores.
Entendo a abordagem e acho importante como material de reflexão e de pensamento sobre o tema. Ao mesmo tempo me questiono sobre os interesses que existem por trás dos patrocinadores do filme, mas não acho que isso desmereça o trabalho lindo que foi feito de entrevista, filmagem e de olhar cuidadoso sobre famílias tão distintas vivendo em situações tão diferentes e sempre, com o olhar carinhoso para o bebê a frente deles.
Vale a pena. Se você for da área ou não, como membro da humanidade, eu indico assistir ao filme.
Leve lenços! :)
Para receber outras postagens do pensando crianças, se inscreva por e-mail aqui no blog ou siga pelo facebook: https://www.facebook.com/pensandocriancas.
Um abraço!
Carol
carolinatorrespsicologa.blogspot.com.br
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Proposta de projeto sobre Bichinhos de Jardim realizada com crianças de 4 anos
Projeto Bichinhos de Jardim
Realizado por crianças de 4 anos (2015)
Tema
relacionado ao eixo natureza e sociedade previsto nos Referenciais Nacionais
para a Educação Infantil para esta faixa etária.
Objetivos:
aguçar a curiosidades das crianças em relação aos animais, à natureza, à
organização social de alguns deles (formigas, abelhas, etc), conhecimento da
relação do homem com a natureza, como no cultivo de mel, uso da seda, das
minhocas, etc.
Etapas:
1
- Introdução do tema
Inicialmente
buscamos pelo interesse espontâneo das crianças após apresentação do tema em
roda de conversa.
A
partir da resposta do grupo de buscar bichinhos para trazer para a escola,
passamos a conversar sobre montar com eles um viveiro em sala, pesquisando
primeiro como montá-lo a partir de livros e da visita ao “Sabor de Fazenda”. Lá
aprendemos a plantar um vaso de trevo e adaptamos a ideia a montagem do viveiro
com as camadas de pedra, areia e terra.
2
– Montagem do viveiro e passeio ao Sabor de Fazenda
Montamos
a base do viveiro com ajuda deles e colocamos nele algumas plantas que foram cultivadas
por eles com sementes das frutas do lanche como pera, maça, melancia, mexerica,
entre outras desde o primeiro semestre.
Nele
as crianças colocavam os animais encontrados fora da escola como tatu bola,
formiga, maria fedida, esperança, taturanas e lagartas, besouros, piolhos de
cobra, caracóis, caramujos, joaninhas, minhocas, louva deus, barata de jardim,
vagalume, etc.
Montamos
também um Insetário com animais que eram trazidos mortos como um besouro
gigante que encontramos no acantonamento, borboletas, cascas de cigarra e
cigarras adultas, abelhas, cascas de caracóis, vespas e outros animais que iam
falecendo no nosso viveiro. Além disso, guardamos casulos que iam ficando vazios
após o nascimento das 5 borboletas e mariposas que nasceram ao longo do
semestre e que soltamos.
Observamos
a transformação destes animais calculando o tempo e tentando prever o tamanho e
a cor que teriam após saírem do casulo. Pesquisamos as diferenças entre
mariposas e borboletas, soltamos todos os animais que voavam supondo que seria
sofrido para os que conseguissem voar ficar confinados num espaço tão pequeno.
Observamos
o nascimento de cerca de 40 ovos do caramujo gigante africano que um dos alunos
trouxe, além da proliferação de tatu bolinhas que apareciam pequeninos ao longo
do tempo, assim como os caracóis pequenos.
3
- Pesquisa em livros, passeio ao “Planeta Inseto”
Num
segundo momento, a partir dos acontecimentos de nosso viveiro fomos buscar informações
em livros sobre insetos, sobre ecossistemas, sobre árvores e sobre animais em
geral. Iniciamos a sistematização dos conhecimentos adquiridos em um livro
geral do grupo sobre o que íamos aprendendo nos livros, em vídeos que
assistíamos sobre alguns animais específicos e o documentário “Microcosmos”,
trazido por um dos alunos. Nele, pudemos ver alguns hábitos que os animais de
jardim tem quando livres na natureza através da filmagem com microcâmeras que
os deixaram impressionados.
Além
disso, fomos buscar mais informação no Museu da USP sobre o tema, chamado
“Planeta Inseto”. Nele descobrimos a diferença entre insetos e outros animais
de jardim como as aranhas, caracóis, minhocas e outros. Conhecemos o bicho pau,
bicho da seda, mais sobre animais sociais como as abelhas e formigas, sobre a
importância das baratas, entre outras coisas.
Pesquisamos
mais em sala com nossos insetos com o uso de lupa e manuseio de alguns deles e
fizemos muitos desenhos de observação chegando a montar um livro individual para
cada um sistematizando nossa aprendizagem que unia os desenhos produzidos por
eles as informações levantadas também pelo grupo.
Introdução
de histórias, poesias, músicas sobre o tema, como “Cigarra e a Formiga”,
músicas “Minhoca Dorminhoca”, “Borboleta pequenina”, etc.
4
– Brincadeiras simbólicas
Construímos
teias de aranha com fios e tela, teias gigantes com elásticos para que eles
pudessem vivenciar serem aranhas e também pintamos o rosto deles com maquiagem,
montamos uma floresta em sala para que eles pudessem vivenciar serem bichinhos
de jardim, montamos casulos com tecidos para que pudessem brincar de serem
borboletas.
Fizemos
brincadeiras com caixas e depois eles pitaram e colocaram elásticos nas caixas
como se fossem as casinhas dos caracóis para brincarem de ser caracóis.
5
– Atividade plástica
Além
dos desenhos de observação dos insetos que fez com que muitas das crianças que
ainda não estavam tão interessadas pela figuração conseguissem figurar,
montamos um painel com borboletas pintadas por eles em transparências com cola
plástica e a técnica de pintura espelhada para fazer as asas delas, eles fizeram
bichinhos feitos com argila e pintaram, colagem com borboletas e introduzimos
as obras de Monet em que ele pintou os jardins de sua casa e fizemos com eles
uma observação de seus quadros e pintamos telas no parque, além de fazer uma
pintura ao ar livre na praça Horácio Sabino num último passeio do semestre.
Construímos
painéis com a técnica de figuração com tesoura, além de desenho, pintura e
colagem.
6
– Contagem
As
crianças contabilizavam os bichinhos que chegavam por tipos e espécies e também
os dias de espera da transformação dos casulos.
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